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Universidade Estadual de Ponta Grossa UEPG
Atualizada em 11/10/2017 14h42

Fórum das Licenciaturas aborda Educação Restaurativa


por Mari Cleia Aparecida de Andrade

    Com o tema 'Escola: Formação de professores: dilemas e desafios', ocorreu, nesta quarta-feira (4), a 10ª edição do Fórum das Licenciaturas da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). No Cine Teatro Ópera, o evento reuniu cerca de  mil alunos dos cursos de licenciaturas em Letras, História, Ciências Biológicas, Física, Química, Geografia, Pedagogia, Matemática, Música, Artes Visuais e Educação Física.Na abertura, a coordenadora do evento, Olinda Thomé Chama (presidente da Comissão Permanente das Licenciaturas - Copelic) deu as boas vindas aos alunos e professores e falou que a realização do Fórum é um compromisso incansável e contundente com os cursos de licenciatura da instituição. "Por consequência se mostra uma ação exitosa a cada ano, que nesta edição contempla o tema 'Formação de professores:dilemas e desafios'. Considero uma oportunidade ímpar para a reflexão de um tema tão pertinente a todos nós. Portanto sintam-se acolhidos e participem na construção deste momento privilegiado que é o Fórum das Licenciaturas da UEPG".Na sequência, o público assistiu à apresentação da mesa temática sobre 'Educação Restaurativa', mediada pela professora Angela Ribeiro Ferreira (Departamento de História) e conduzida pelas professoras e agentes educacionais do Colégio Estadual Professor João Ricardo Von Borell du Vernay, Adriana Ribeiro Ferreira, Andreia Ferreira Ribas, Claudia Denise Garcia e Mateus Szczerepa.A professora Adriana Ferreira compartilhou com os acadêmicos informações sobre o projeto desenvolvido no colégio Borell intitulado 'Escola Restaurativa' que envolve uma série de ações que estão experimentando desde 2014. Dentro do projeto tem um grupo denominado facilitadores Borell. "O projeto surge da idéia da escola como espaço diverso, conflituoso plural. Dentro de toda essa estrutura encontramos características que por vez  se materializam nos conflitos. Então essa é uma das tônicas do projeto. A escola é um espaço conflituoso e nós como sujeitos que estamos dentro da escola temos que de alguma forma gerir os conflitos". Adriana Ferreria explica que a origem do projeto na escola aconteceu, primeiramente, devido a muitos conflitos, o que originou na busca pelo Judiciário para auxiliar no processo de mediação. "Nós partimos de uma estrutura do Judiciário que, dentro do organograma deles, tem uma vertente que é chamada de justiça restaurativa. Esta modalidade de justiça oferece aos sujeitos a possibilidade de resolver os seus conflitos sem a atuação de um juiz, mas que seja resolvido com o acordo das partes". Através de uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a justiça restaurativa prevê que as práticas restaurativas não precisam ficar no âmbito do judiciário, mas que elas podem ser estendidas para outros setores da sociedade.
A professora comenta que, quando a escola  buscou ajuda do Judiciário, constatou-se que eles tinham muitas denúncias de casos de adolescentes e crianças cometendo ato infracional. A partir dessa constatação, a direção do colégio chegou à conclusão de que a escola é um dos lugares mais violentos. "Não discordamos do Judiciário. Em muitos casos é a violência velada, não explícita. A violência não acontece só quando dois adolescentes  se agridem fisicamente. Tem a violência estrutural; ela está instalada e é paulatina dentro da escola". A partir das constatações dos problemas do colégio, o Conselho Nacional de Justiça propôs que a escola integrasse o projeto Escola Restaurativa.Adriana Ferreira lembra que a iniciativa de procurar uma solução para os conflitos partiu da diretora Claudete Aparecida de Campos Albuquerque, quando aconteceu um episódio grave de violência  envolvendo os  alunos. Na tentativa de solucionar o problema, a diretora foi conversar com a promotora de Justiça para procurar alternativa para resolver o problema na escola. Foi sugerido que professores e funcionários se capacitassem. Para atuar nas práticas restaurativas foi preciso passar por um processo de capacitação para facilitador.Confome a professora, em 2014 aconteceu uma edição de capacitação para facilitadores da Justiça Restaurativa de Ponta Grossa e o Colégio Borell foi convidado para fazer parte. Porém mesmo com a capacitação, a atividade era uma empreitada individual. Apenas três pessoas foram capacitadas dentro da escola e a necessidade dessa prática não foi compreendida por todos os sujeitos. Ainda assim foram realizadas algumas atividades isoladas.
"Com um número significativo de professores e funcionários que passaram pelo curso de capacitação, começamos pensar em estratégias para reverter a violência dentro da escola. Numa oportunidade em que houve outro episódio de violência envolvendo os alunos, fomos fazer a capacitação e entendemos que seria uma via possível para a construção da paz. As práticas tem alguns princípios norteadores: responsabilização, empoderamento, pertencimento, expressão autêntica, horizontalidade e escuta ativa. Quero deixar claro que não fazemos Justiça Restaurativa. Isso pertence ao Judiciário. A proposta é que nos apropriemos dos princípios norteadores da Justiça Restaurativa e façamos adaptações para escola. Estamos em processo de construção de um referencial teórico que seja da educação do ensino para vincular as práticas restaurativas. As práticas vêm acontecendo dentro da escola de duas formas: organização por meio sistemático  através dos círculos e nas relações cotidianas".

Círculos restaurativos
A abordagem do círculo é focada nas necessidades do problema, o que resultou o conflito, ou que ainda está pendente entre as partes, para que estas se aproximem e os participantes sejam responsabilizados. Essa responsabilidade é determinada a partir do diálogo, sendo elaborado um plano de ação para que os laços sociais sejam restaurados. Os círculos são uma forma de resolver os conflitos não violentamente, sem envolver o Judiciário, e sem envolver a sobreposição de um sobre o outro. Os alunos sentam em circulo com dois facilitadores para se conectarem, para que se sintam iguais uns as outros. Para que eles sejam aplicados com êxito, faz-se necessário o entendimento dos envolvidos e dos facilitadores, bem como dos alunos que participarão do círculo."Atualmente no colégio temos 10 pessoas capacitadas entre professores e funcionários. Temos uma nova perspectiva diante do conflito que acontecerá. Não é porque nós somos projetos restaurativos que a gente não tem conflito. Nós procuramos localizar e identificar conflitos em seguida ouvir as duas partes separadamente. Não tomamos nenhum posicionamento sem saber o que está acontecendo. A partir daí propomos uma conversa em conjunto com as partes e os facilitadores. Construir um acordo de convivência, orientar as atitudes e acompanhar posteriormente essas atitudes tem criado um vínculo e um canal de comunicação valioso. Hoje estamos num estágio de entendimento que os alunos nos procuram para resolver os problemas, e muitas vezes, a solução parte dos próprios alunos e não dos facilitadores".Adriana Ferreira observa que esse posicionamento dos alunos de buscar uma alternativa quando existe um conflito já representa um ganho porque, segundo ela, antigamente eles combinavam as brigas pelo celular, e a direção da escola só ficava sabendo quando a situação já estava ocorrendo. "Desde que as práticas restaurativas estão sendo aplicadas no colégio já formamos mais de 70 círculos com 90% de aprovação dos alunos. Observamos que, do ponto que  partimos, com uma escola que estava nas redes sociais por registro de violência, hoje estamos criando tempos e espaços para ferramentar, alunos professores funcionários, com ampliação do seu repertório de estratégias de linguagem e de intenções para resolução de conflitos e a melhoria nas relações".

Fórum das Licenciaturas aborda Educação Restaurativa